Lancei meu livro no pior momento da minha vida. E isso não é uma história de superação
Enquanto do pai com aneurisma, a psicóloga Flávia Albuquerque realizava o sonho de publicar o “Despatologiza: a vida que não cabe no diagnóstico” pela editora Rocco. Ela conta como foi lidar com a dualidade de estar extremamente feliz e profundamente triste ao mesmo tempo.

Uma das grandes ironias da minha vida aconteceu em um único dia. Justamente quando o meu pai foi internado pela primeira vez, com o diagnóstico de um aneurisma gigante, recebi da minha editora a arte da capa do meu primeiro livro para aprovação e a notícia de que a pré-venda começaria na semana seguinte. A mesma data guardou, para mim, o início do pesadelo e a concretização de um sonho – e eu entrei em parafuso, sem saber o que fazer com dois acontecimentos que pareciam não caber juntos dentro de mim.
“Estar alegre com o livro parecia um sinal de que eu não estava cuidando direito do meu pai”
Nos dias que antecederam a cirurgia, eu resolvia as últimas burocracias com a editora: aprovava a arte da capa, me reunia com o marketing para combinar a divulgação. E era como se, ao mesmo tempo em que eu deveria estar atônita de felicidade com a iminência do lançamento, alguém tivesse levado embora uma parte dessa alegria. A tensão pela proximidade da cirurgia ocupava tudo. Uma semana depois da operação, a pré-venda finalmente começou e, nessa data, o meu pai já estava internado pela segunda vez, porque os sintomas neurológicos haviam piorado. Foi assim que eu vivi o lançamento do meu livro: respondendo a uma enxurrada de mensagens de parabéns enquanto o meu pai estava, de novo, na UTI.
Há uma cena desse período que resume tudo... Eu estava no meu quarto, com a minha mãe, e nós duas líamos juntas os comentários de felicitação no post de lançamento. Enquanto rolávamos a tela cheia de carinho e celebração, eu pensava na contradição brutal daquilo – no quanto eu queria que o meu pai pudesse estar ali, participando daquele momento que também era dele. Porque o livro era, em parte, uma surpresa que eu havia guardado para ele durante dois anos. Eu tinha mantido segredo, planejava que ele fosse um dos primeiros a ser presenteado, que pudesse lê-lo. Nada disso foi possível. E, junto com a tristeza, veio uma raiva – raiva da coincidência cruel dos acontecimentos, da forma como eles se sobrepuseram e roubaram um do outro.
Foi com essa raiva, e com a culpa que veio logo atrás dela, que comecei a entender algo sobre os nossos sentimentos e sobre as exigências que colocamos sobre eles. Eu me senti culpada por ter algo grandioso acontecendo na minha vida, algo que me trazia uma alegria real, no mesmo contexto em que o meu pai adoecia. Era como se a dor devesse ser soberana, como se ela tivesse o direito de ocupar todo o espaço e não admitisse a presença de nenhuma felicidade ao seu lado.
Estar alegre com o livro passou a parecer, dentro de mim, um sinal de que eu não estava cuidando adequadamente do meu pai – ainda que eu tivesse pausado o meu trabalho inteiro, os meus atendimentos clínicos, para me dedicar exclusivamente a ele. E eu me senti culpada, também, pela raiva. Ao acessá-la, era como se eu tocasse em algo pecaminoso, algo que não deveria estar ali, porque haveria de existir uma espécie de pureza, de assepsia dos sentimentos, diante de um pai doente e dependente de cuidados.
Demorei um pouco para reconhecer de onde vinha essa cobrança. Há, nela, uma lógica que mistura uma moral de raiz cristã – a ideia de que o sofrimento enobrece e que a alegria, em meio à dor do outro, é quase uma traição – com uma imposição de gênero muito específica: a de que cabe à mulher a abnegação completa, o apagamento de si em nome do cuidado, sobretudo quando esse cuidado é dirigido a um homem.
A mulher que cuida não pode ter vida própria acontecendo, não pode ter conquistas ocupando o seu tempo e o seu coração, não pode sentir nada que não seja a dedicação integral ao outro. E foram justamente esses sentimentos –a alegria, a raiva, a frustração – que eu me vi tendo que esconder de quase todo mundo, como se fossem inadequados, como se houvesse algo de errado em ser uma pessoa inteira, com afetos contraditórios, no meio de uma tragédia.
E aqui eu preciso fazer uma confissão profissional. Se eu estivesse contaminada por uma certa perspectiva patologizante da saúde mental – aquela que aprendi a questionar e que dá nome ao meu trabalho –, eu poderia facilmente ter olhado para esse trânsito rápido entre a euforia e o desânimo, entre a alegria pelo livro e a angústia pelo meu pai, e me diagnosticado. Poderia ter interpretado essa oscilação como "instabilidade emocional", poderia ter lido a minha variação de humor como sintoma, poderia ter me convencido de que uma pessoa "equilibrada" não sentiria coisas tão opostas em tão pouco tempo. A gramática do diagnóstico está sempre à disposição, pronta para converter aquilo que é resposta legítima a circunstâncias extraordinárias em disfunção a ser corrigida.
"Ninguém ao meu redor me chamou de guerreira. A cobrança veio de dentro"
Mas não há nada de desequilibrado em uma pessoa que sente alegria e tristeza diante de uma vida que lhe oferece, ao mesmo tempo, motivos para ambas. O que existe é uma capacidade profundamente humana de habitar a ambivalência, de sustentar dentro de si sentimentos que a lógica binária insiste em separar. Sentir felicidade pela realização e desespero pela doença, gratidão pelas mensagens e raiva pela coincidência, tudo isso ao mesmo tempo, não é sinal de que algo está errado. É a expressão mais honesta do que significa estar viva diante de uma situação que não cabe em uma só emoção.
Ainda assim – e é sobre isso que eu quero encerrar –, eu não escapei totalmente da lógica que critico. Ela não veio de fora. Ninguém ao meu redor me chamou de guerreira ou me exigiu superação; convivo com pessoas de senso crítico demais para esse tipo de discurso. A cobrança veio de dentro. Eu me peguei sobrecarregada, acumulando funções que se multiplicavam: resolvendo os trabalhos dos quais tive que abrir mão, assumindo a linha de frente das questões burocráticas da minha família, seguindo com a divulgação do livro, dando entrevistas, organizando uma mudança de casa. Percebi que carrego, como mulher, a ideia arraigada de que "se eu não tomar a frente, ninguém mais vai saber fazer" – e foi essa ideia, mais do que qualquer discurso externo, que quase me adoeceu. A narrativa de superação que eu recusaria de imediato se viesse da boca de outra pessoa, eu estava aplicando silenciosamente a mim mesma.
O que eu tenho feito, desde que percebi isso, é o oposto do que a lógica da abnegação recomenda: delegar, dividir, pedir ajuda, chamar mais gente para as responsabilidades. Porque a recusa que eu proponho aqui não é só a de patologizar os próprios sentimentos, é também a de aceitar que precisamos dar conta de tudo sozinhas, sem falhar, sem descansar, sem deixar que a dor interrompa o rendimento. Eu lancei um livro no pior momento da minha vida. Chorei e sorri, muitas vezes no mesmo dia, e senti raiva, e senti culpa, e senti orgulho. Não há, em nada disso, uma lição de força a ser extraída. Há apenas uma pessoa inteira, atravessando algo impossível, com todos os sentimentos que uma pessoa inteira é capaz de ter.
O livro “Despatologiza: a vida que não cabe no diagnóstico” foi lançado pela editora Rocco no dia 31 de julho de 2026 e já ocupa posições de destaque nos rankings de vendas da Amazon Brasil na categoria de saúde e psicologia.




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