Princesa, sim. Mas não aquelas
O que os contos de fadas dizem sobre as mulheres — e o que as mulheres de hoje querem dizer de volta? Luisa Micheletti parte das princesas que povoaram nossa infância para discutir as mudanças na representação do feminino e apresentar uma personagem que decide reescrever a própria história.

Deitadas na cama antes de dormir, ainda meninas, escutávamos alguém ler uma história sobre uma jovem sofrida que passava alguma injustiça e esperava passivamente a vinda de um príncipe encantado que resolveria todos os problemas dela. Essa cena se repetiu muitas e muitas vezes na infância da maioria de nós, millenials, que fomos absorvendo este modelo de existir, quase sem perceber.
Se as histórias refletem o nosso tempo, será que o nosso tempo também não se reflete nas histórias?
Os contos de fada podem parecer histórias ingênuas que fizeram parte da nossa infância distante. Mas o fato é que vez ou outra, mais do que gostaríamos, já adultas e “resolvidas”, nos flagramos isoladas e tristes numa torre altíssima, desejando ter tranças longas para jogar e atrair um salvador. Nos vemos desanimadas diante da nossa própria falta de propósito, esperando que alguém nos tire da vidinha ordinária na qual nos enfiamos, nos convidando a entrar numa linda carruagem puxada por um cavalo 2.0.
O psiquiatra e psicoterapeuta Carl Jung disse que, quando estudamos os contos de fadas, podemos estudar a anatomia do ser humano. Essas mesmas histórias que ouvíamos na infância são tipo um raio-x de processos psicológicos que se repetem nas culturas às quais as histórias pertencem. Os contos clássicos, com suas princesas, bruxas, cavernas, oráculos, seres mutáveis, mentores, trazem simbolicamente um verdadeiro mapa de como funcionamos como sociedade. Mas e o contrário? Se as histórias refletem o nosso tempo, será que o nosso tempo também não se reflete nas histórias?
A partir do momento em que as mulheres criam consciência de onde estão localizadas na sociedade, criam movimentos políticos, mudam comportamentos, questionam a ordem vigente e novas representações femininas vão surgindo na ficção. Não à toa, a terapeuta feminista norte-americana Collete Dawling lança o famoso livro “Complexo de Cinderela” no qual revela o desejo oculto de sermos salvas, o medo de assumirmos o próprio destino e a inevitável consequência: relacionamentos de dependência. Sincronicamente, em 1989, “A Pequena Sereia”, aparece já um pouco mais desejante, interessada no universo que existe para além do que foi criada, e ousada do que suas antecessoras Aurora e Branca de Neve. A rebeldia já começa a surgir. Mesmo que no fundo do mar.
De lá para cá, vimos muitas mudanças e evoluções na forma como o feminino vem sendo representado. Isso graças às conquistas das mulheres no campo da própria consciência, na política, no mercado de trabalho. Não só o comportamento das princesas mudou, como passamos a ver um recorte racial um pouco mais inclusivo, com princesas não brancas na cultura de massa a partir dos anos noventa.
Mas afinal, quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha? A realidade influencia a ficção ou a ficção influencia a realidade? A resposta: galinha e ovo nascem ao mesmo tempo. Sim, a realidade alimenta a história ao mesmo tempo que as história dão os contornos para o que imaginamos como possibilidade na realidade.
Foi pensando nisso que surgiu meu desejo de construir uma princesa na ficção que gargalhasse pelos ares, que voasse livre, que se esbaldasse comendo um monte de doce, que não se importasse em estar acima do peso, que amasse ciência, usasse camiseta de banda... e principalmente, que tivesse o direito de ser arrogante, pedante e inconsequente. Por que não? E que, claro, sofresse as consequências disso e se transformasse, como todo herói masculino tem o direito de fazer nas histórias clássicas.
Em “São Paulo, Terra Encantada”, livro infantojuvenil que acabo de publicar, a princesa Tessa está cansada de ser feliz para sempre. Ela não quer cumprir as funções de princesa. Quer conhecer outros mundos. Quer vir para São Paulo. Na cidade, ela encontra o que quer, mas também se deslumbra, perde o chão, desvaloriza coisas importantes, como amizade. Quando ela cai em si e se dá conta de que os contos de fada influenciam a cabeça das meninas da cidade, ela mesma decide voltar e reescrever a própria história no mundo encantado, e assim, ser um modelo mais interessante para as crianças reais.
As histórias impactam níveis que uma conversa intelectual não alcança, porque provocam reações emocionais e sensações de compreensão de algo que conhecemos instintivamente, mas não sabemos nomear com palavras. As histórias nos atingem antes de sabermos elaborar qualquer coisa racionalmente. Foi por isso que resolvi lançar este livro e falar sobre uma princesa. Não só para as crianças, mas para nós, mulheres adultas, darmos um novo sentido para o que absorvemos no passado.
Livro: “São Paulo, Terra Encantada”, de Luisa Cretella Micheletti
Ilustrações: Gustavo Gialuca
Editora: Laranja Original






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