Com quantas emoções se faz uma gargalhada?
Tem cerca de 4 anos que Pedro Vinicio é colunista da MINA e, nesse tempo, aconteceu tanta coisa que vale a pena contar. Hoje, aos 20 anos, o artista volta a Garanhuns em busca de silêncio criativo, e segue temperando emoções difíceis com seu humor

Como costuma se dizer por aí, o tempo voa. No caso de Pedro Vinício então… O artista pernambucano fenômeno das redes sociais, que ganhou uma legião de fãs com suas artes diferentonas em plena pandemia, chegou aos 20. Quando começou a publicar seus desenhos ainda era um adolescente tentando compreender um mundo que observava mais do que experimentava. Aos 14 anos, desenhava sentimentos emprestados. A melancolia, os amores frustrados, a ansiedade e as pequenas tragédias do cotidiano surgiam menos da experiência e mais da imaginação, alimentada por conversas, livros e uma curiosidade pelo que os mais velhos tinham a dizer. Não por acaso, um de seus melhores amigos na época era um senhor de 70 anos, dono de um sebo de Garanhuns, cidade do Agreste onde nasceu.
O traço continua o mesmo, deliberadamente infantil e colorido, imediatamente reconhecível. Mas a matéria-prima mudou. Se antes desenhava emoções intuídas, agora parte da própria vida. "Me tornei meu próprio laboratório. Minha criação está mais biográfica", explica ele. A frase ajuda a entender o momento atual de sua trajetória. Depois de lançar livro, se tornar colaborador de veículos como Folha de S.Paulo e Mina Bem-estar (claro!), participar de exposições e ver suas criações circularem muito além do Instagram, Pedro decidiu fazer um movimento incomum para um jovem artista: desacelerar.
Depois de experimentar a vida em Recife, no Rio de Janeiro e em São Paulo, Pedro decidiu voltar para Garanhuns. Ali, longe da rotina de eventos, vernissages e socialização excessiva, encontrou aquilo que considera indispensável para criar: tempo. Tempo para pesquisar, ler, observar, conversar e ampliar o repertório. "Agora é o momento de expandir meu universo", diz. "Meu projeto é ficar aqui, fazer as coisas com tempo e depois ir para o Rio ou São Paulo para lançar livro e exposição. Garanhuns é fundamental para mim." Em um mercado em que artistas costumam migrar para os grandes centros em busca de oportunidades, Pedro adotou uma tática diferente. Vai quando precisa. Expõe, participa de eventos, encontra amigos, conhece artistas. Depois volta. Volta porque acredita que ideias precisam de silêncio. Não se trata de uma crítica às cidades. Tampouco ao circuito artístico que hoje acompanha seu trabalho. É apenas um diagnóstico. O ritmo frenético tomava todo o tempo disponível.
Humor é bem-estar
Essa mudança de ritmo coincide com um processo de transformação interna. Suas obras, que exploram emoções consideradas negativas, seguem capazes de transformar ansiedade, rejeição, insegurança e pequenos fracassos cotidianos em delicadas doses de humor. É justamente nessa combinação entre fragilidade e leveza que está a força de sua criação. "As pessoas se identificam nos momentos difíceis, na dor, e conseguem enxergar o lado bem-humorado de algumas situações. Acho que foi isso que me fez conquistar tantos fãs. O humor consegue falar dessas coisas difíceis. No meu trabalho, busco essas emoções e tento deixar tudo mais leve." Pedro confessa que também exorciza seus demônios por meio de sua arte: “Funciona como uma terapia”.
Talvez seja justamente essa a razão de sua enorme capacidade de comunicação. Em vez de oferecer respostas, sua arte abre espaço para que cada leitor reconheça um pouco de si mesmo. Nos eventos de lançamento de seu livro, as filas nunca foram formadas apenas por pessoas em busca de um autógrafo. Quase sempre havia alguém disposto a contar uma lembrança despertada por uma ilustração: a morte da avó, o fim de um relacionamento, uma crise de ansiedade, uma saudade antiga. "Teve um Dia das Mães em que fiz um desenho e recebi um monte de comentários de pessoas que, por causa da minha arte, foram abraçar a mãe." É esse tipo de retorno que mais o emociona.
Coleção de encontros
Ao longo da nossa conversa, chama atenção como Pedro fala pouco sobre aquilo que costuma medir o sucesso nas redes. Número de seguidores e engajamento quase não aparecem. Quando olha para a própria trajetória, prefere destacar outra coleção: a de encontros. Fala das amizades improváveis, das conversas madrugada adentro, dos artistas que admirava de longe e que hoje fazem parte da sua vida e com quem divide uma mesa de bar. Esse alcance ainda o surpreende. Entre seus admiradores estão alguns daqueles que, até pouco tempo, ocupavam apenas o lugar de referência. Caetano Veloso e Zélia Duncan compraram telas assinadas por Pedro para pendurar nas suas casas. Maria Bethânia, Laerte, Gilberto Gil e até Patti Smith estão entre seus seguidores nas redes, só para citar alguns. Isso sem falar na turma das artes. Atualmente ele troca figurinhas com Luiz Zerbini, Cildo Meirelles, Jac Leirner e Ana Elisa Egreja, entre outros nomes fortes do mercado contemporâneo brasileiro.
De olho na vizinhança
Se no início da carreira Pedro mirava no topo da arte contemporânea, hoje sua pesquisa acontece muito mais perto de casa. De uns tempos para cá, ele passou a visitar ateliês de artistas populares nordestinos, observar esculturas de madeira, colecionar bonecos produzidos por artesãos autodidatas e percorrer feiras de antiguidades espalhadas pelo interior nordestino: "Me liguei que tem muita coisa que fala com meu trabalho e está aqui perto". A descoberta ampliou seu olhar sobre uma produção artística que sempre existiu ao seu redor, mas que, durante muito tempo, não chamava tanto sua atenção. E com certeza deve inspirar suas novas obras.
Ao falar sobre o futuro, o artista pernambucano não demonstra ansiedade. Do alto de seus 20 anos, parece confortável com a ideia de que sua produção é um organismo em constante evolução. Imagina que, aos 30 ou 40, olhará para os desenhos de hoje com a mesma curiosidade com que observa seus primeiros trabalhos. Nada lhe parece definitivo. Nem o traço. Nem os temas. Nem a maneira de compreender o mundo. Quando perguntado sobre os próximos passos, responde com a mesma simplicidade e aquele sotaque cheio de charme que atravessa toda a conversa: "Vou sempre expandir meu universo. Qualquer coisa me inspira. Uma conversa, uma frase, uma música... Às vezes a pessoa fala duas palavras e já dá para entender o universo dela."
Ao escolher Garanhuns ao burburinho dos grandes centros, foi ali que montou sua primeira morada solo – quer dizer, nem tão solo assim já que ele divide o espaço com a namorada. É na melancólica e enevoada cidade do agreste pernambucano que o artista encontra a paz que precisa para escutar sua cabeça e planejar os próximos passos da sua carreira. Além de abastecer as redes e criar para os veículos, ele alimenta planos de lançar um novo livro, com obras inéditas, e organizar uma exposição solo em São Paulo ou Rio. “Tenho milhares de artes guardadas na casa da minha avó, onde eu morava antes. Estou trabalhando em coisas novas para esses projetos acontecerem no ano que vem”.


Comentários (0)