Como (e quando) terminar com o seu terapeuta
O “felizes para sempre” não sobrevive nem ao divã. Às vezes, o cuidado está em saber ir embora.

Entre uma sessão e outra, a gente se esquece que a terapia também é uma relação. Íntima, assimétrica e atravessada por expectativas. E, como toda relação, há encontros que se transformam e, em algum momento, se encerram.
“Você, além de paciente, também é cliente. Se você não gosta de um produto ou do serviço que está sendo oferecido, isso precisa ser dito. Inclusive, esse movimento é um exercício valioso, porque a relação construída com o terapeuta dentro da sessão costuma espelhar a forma como você se relaciona fora dali", pontua Iane Ventura, psicóloga especialista em bem-estar e autorrealização. “A terapia pode ser justamente esse espaço para colocar a frustração, o desconforto, tanto em relação ao processo quanto ao que ele desperta em você", diz.
“O analista está ali para ouvir e oferecer um espaço no qual o paciente possa se escutar, não para falar de si”
Descompassos, inadequações e mudanças de vida podem levar ao encerramento da terapia. Mas há um motivo que, embora não seja o mais comum, é o mais grave: a quebra de limites éticos.
Quando o desconforto deixa de ser clínico
O desconforto é normal no processo terapêutico. Acessar e revisar conteúdos internos que nem sempre são agradáveis podem despertar sentimentos de raiva, tristeza e dor no paciente – e é normal que o psicólogo confronte e se aprofunde nesses sentimentos. “Agora, um desconforto que não faz parte do processo terapêutico é o desconforto do desrespeito", afirma o especialista em terapia cognitiva Bruno Farias.
É preciso estar atento quando o desconforto vem de não ser escutado, de sentir que o profissional não se interessa genuinamente por quem você é ou recorre a um repertório atravessado por preconceitos, julgamentos ou abusos psicológicos. “O desconforto de estar diante de um profissional incompetente é muito diferente do desconforto de estar em um bom processo terapêutico”, acrescenta Bruno.
Outra red flag aparece quando o psicólogo passa a ocupar mais espaço da sessão com a própria narrativa do que com a escuta do paciente. Independentemente da abordagem terapêutica, esse desequilíbrio é reconhecido como uma falha ética no exercício clínico. “O analista está ali para ouvir e oferecer um espaço no qual o paciente possa se escutar, não para falar de si”, afirma o psicanalista André Alves.
Cadê a sintonia que estava aqui?
Há também motivos mais sutis para o encerramento da relação terapêutica, como a chamada “falta de química” entre paciente e terapeuta. Como explica Iane Ventura, a experiência clínica não se define apenas pela abordagem teórica, mas pela forma como cada profissional a encarna. Mesmo dentro de uma mesma linha, como a TCC, os psicólogos atuam de maneiras distintas, atravessados por sua presença, estilo e modo de conduzir o processo, para além da teoria.
Questões de gênero, raça, maternidade ou orientação sexual também atravessam a relação terapêutica. Nem sempre o paciente se sente seguro ou confortável para elaborar aspectos centrais da própria história diante de alguém com quem não consegue estabelecer identificação.
Também pode haver um desencontro entre o tipo de cuidado buscado e a abordagem escolhida. Quem procura respostas mais rápidas e objetivas, por exemplo, pode se frustrar em uma psicanálise, que não opera sob a mesma lógica da TCC, mais breve e focada no aqui e agora. Querer mudar faz parte do processo. A questão não é essa, mas como conduzir esse movimento.
Existe receita para o fim?
Lembro quando, depois de oito anos de acompanhamento, decidi “terminar” a relação com a terapeuta que me acompanhava. A química entre nós havia se perdido, eu sentia que seu olhar já estava condicionado a uma mesma perspectiva sobre mim e que as reflexões, que por tanto tempo foram potentes e transformadoras, haviam se dissipado. Como comenta André, “uma dupla analítica se esgota quando perde a capacidade de transformar o pensamento”.
Decidi encerrar a nossa relação e me vi perdida diante do processo: como termino com ela? A resposta, descobri depois, não é simples nem segue roteiros. Mas parte de uma premissa básica, que em meio à pressa e ao ruído dos tempos atuais, costuma ser esquecida: é preciso dizer adeus. Nada de desaparecer, de simplesmente nunca mais responder ou de abandonar a terapia sem mais nem menos.
Esse encerramento não diz respeito apenas às emoções envolvidas no fim de um vínculo, mas também à relação profissional que existe entre paciente e terapeuta. Além de paciente, eu era cliente. A decisão de interromper o processo impactava diretamente a agenda e o trabalho da psicóloga, e isso precisava ser comunicado com clareza.
Ainda assim, como explica Iane Ventura, se alguém opta por mandar uma mensagem e sumir, isso também é possível. Não existe uma obrigação que force o paciente a voltar para “resolver” a frustração do terapeuta. Essa frustração, quando existe, cabe ao profissional elaborar. O caminho mais saudável, porém, costuma ser o da conversa.
O primeiro passo é tentar entender o que você está sentindo em relação à terapia e levar isso para a sessão. Falar da própria terapia dentro da terapia, nomear o desconforto, pedir a opinião do profissional. Um psicólogo ético sabe reconhecer seus limites e, quando necessário, abrir mão. Pode indicar outro colega, sugerir uma abordagem diferente ou apontar caminhos que façam mais sentido naquele momento.
O compromisso do terapeuta é com o cuidado do paciente. E, às vezes, a melhor forma de cuidar é justamente não continuar. A minha ex-terapeuta entendeu isso. Nem toda relação terapêutica vai terminar assim, mas a decisão de ir embora, quando é hora, não deixa de ser sua.




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