Os jovens ainda criam cultura ou apenas consomem tendências?
As redes sociais ampliaram as possibilidades de expressão, mas também transformaram a maneira como os jovens constroem identidade e pertencimento. A analista de moda Verena Figueiredo investiga como os algoritmos mudaram a relação da juventude com a criatividade e a experimentação.

Existe uma sensação cada vez mais comum de que os adolescentes já não revolucionam a cultura como faziam décadas atrás. Basta olhar para o século XX: hippies, punks, grunges, clubbers. A juventude criava movimentos, ditava tendências, questionava padrões e encontrava na música, na moda e na arte uma forma de expressar sua visão de mundo. Hoje, parece que tudo acontece de forma diferente.
“Em um ambiente onde tudo vira conteúdo, experimentar passou a exigir coragem”
Para entender essa mudança, vale lembrar que a própria ideia de juventude nem sempre existiu da forma como a conhecemos. A adolescência ocidental, como conhecemos, é uma invenção relativamente recente. Foi apenas no pós-guerra, com o aumento da escolaridade, do tempo livre e do poder de compra dos jovens, que surgiu esse período dedicado à descoberta da própria identidade. Pela primeira vez, existia espaço para experimentar roupas, ideias, amizades, estilos de vida e até quem se queria ser.
Dessas experiências se massificaram as subculturas. Mais do que um jeito de vestir, elas representavam comunidades construídas em torno de valores, posicionamentos políticos e referências culturais. O grunge, por exemplo, nunca foi apenas camisa de flanela. Era uma crítica ao consumo, uma valorização da autenticidade e uma cena musical que reunia pessoas com a mesma inquietação. O mesmo vale para o movimento hippie, que carregava uma forte oposição à guerra e ao modelo tradicional de sociedade.
Hoje, a internet ampliou nossas possibilidades de conexão como nunca antes. Um adolescente que mora em uma cidade pequena pode encontrar pessoas com os mesmos interesses em qualquer lugar do mundo. Isso é um avanço inegável. Mas essa expansão trouxe um efeito colateral: a identidade passou a ser construída sob os olhos de todo mundo – online.
A adolescência sempre foi o momento de testar, mudar de opinião, errar o corte de cabelo, vestir algo estranho e descobrir, aos poucos, quem se é. Só que agora cada tentativa pode ser registrada, compartilhada e julgada instantaneamente. Em um ambiente onde tudo vira conteúdo, experimentar passou a exigir coragem. O resultado é um paradoxo curioso: nunca existiram tantas ferramentas para ser diferente e, ao mesmo tempo, nunca vimos tantos jovens parecidos entre si.
As redes sociais ajudam a explicar parte desse fenômeno. Plataformas como Instagram, TikTok e Pinterest democratizaram o acesso a referências culturais, mas também transformaram muitas subculturas em produtos estéticos. Movimentos como cottagecore (estética que romantiza a vida simples no campo e o contato com a natureza), dark academia (estilo inspirado na literatura clássica, na vida universitária e na estética acadêmica europeia) ou grungecore (visual influenciado pelo movimento grunge dos anos 1990, marcado pela contracultura e pelo espírito anticonsumista) reproduzem elementos visuais de movimentos históricos, mas frequentemente deixam de lado os contextos sociais, políticos e culturais que lhes deram origem. A estética permanece. A comunidade, muitas vezes, não.
“O capitalismo sempre encontrará maneiras de transformar autenticidade em produto”
Talvez essa seja a maior mudança da cultura jovem nos últimos anos. Antes, o estilo era consequência de uma identidade individual e coletiva. Hoje, muitas vezes, ele se torna o ponto de partida. Consome-se uma imagem antes mesmo de construir convicções.
Isso também ajuda a explicar outro movimento curioso. Enquanto espaços, revistas e marcas voltados ao universo adolescente perdem força, cresce a pressão para que adolescentes consumam como adultos. Rotinas complexas de skincare, procedimentos estéticos, preocupações com produtividade e hábitos de consumo cada vez mais precoces encurtam uma fase que, historicamente, sempre foi marcada pela experimentação.
Não porque os jovens queiram crescer mais rápido, necessariamente, mas porque existe um mercado inteiro interessado em vender essa ideia. É injusto colocar a responsabilidade dessa transformação sobre uma geração que cresceu conectada desde o nascimento. O ambiente digital recompensa aquilo que gera identificação imediata, e repetir uma tendência costuma ser muito mais seguro do que criar algo completamente novo.
Ainda assim, toda grande mudança cultural nasceu de pessoas dispostas a nadar contra a corrente. O capitalismo sempre encontrará maneiras de transformar autenticidade em produto. Mas nunca conseguirá eliminar completamente quem insiste em criar antes de consumir. Talvez os jovens não tenham deixado de ser criativos. Talvez apenas estejam tentando descobrir quem são em um mundo que exige que eles pareçam prontos o tempo todo.


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