A armadilha da autossuficiência: tentar dar conta de tudo está nos adoecendo
A cultura da produtividade e da autossuficiência faz muitas mulheres acreditarem que pedir ajuda é sinal de fraqueza. Mas o custo dessa lógica pode ser alto para a saúde e para os relacionamentos. Especialistas explicam como encontrar um equilíbrio entre autonomia e vínculo.

A independência costuma ser tratada como um ideal. Afinal, ela está diretamente ligada à liberdade, estabilidade, autonomia e segurança — valores importantes pro nosso bem-estar. Para as mulheres, conquistá-la também significa romper, ainda que parcialmente, com uma lógica patriarcal que, por muito tempo, restringiu nossa autonomia financeira, nossas escolhas e nossos modos de viver. Mas essa conquista tem um preço. Quando a independência deixa de ser uma possibilidade para se tornar uma obrigação, ela pode se transformar em mais uma fonte de sobrecarga.
Não é à toa que discursos como "eu me basto", "eu dou conta de tudo sozinha" e "eu sou o meu braço direito" ganharam força nas redes sociais e também fora delas. Eles expressam uma conquista que, durante muito tempo, pareceu inalcançável: ocupar um lugar de autonomia. Mas essa independência também passou a ser celebrada como um ideal de sucesso. Com isso, muitas mulheres acabam pressionadas a encarnar a figura da "mulher-maravilha": aquela que resolve os próprios B.O.s, equilibra vários pratinhos e evita pedir ajuda, como se seu valor dependesse da capacidade de aguentar tudo.
Para a psicanalista e escritora Ana Suy, essa lógica parte da fantasia de que é possível se tornar uma espécie de máquina. “Buscamos ser alguém de alto rendimento, que performa muito bem em todas as áreas da vida, já que tudo o que é humano aparece como um defeito. É uma fantasia e está tudo bem a gente almejar isso em alguma medida. A questão é acreditar que isso seja possível”, afirma.
Os dados mostram o quanto essa dinâmica pode ser desgastante. Um levantamento realizado pela Telavita, em 2025, revelou que 66,67% das mulheres em cargos de alta gestão apresentaram quadros de burnout. Sobrecarga, cobranças e a necessidade constante de provar competência estão entre os fatores associados a esse cenário. Mas o burnout não é o único efeito colateral. Muitas mulheres também vivenciam a chamada ansiedade funcional: conseguem dar conta de tudo — muitas vezes sozinhas — enquanto seguem em sofrimento. E essa não é uma questão individual, mas estrutural.
Independência tóxica
Segundo Marcelle Xavier, escritora, pesquisadora de relacionamento e comunidades, e criadora da abordagem Design de Conexões, a ideia de que devemos dar conta de tudo sozinhas é parte de um sistema cultural e econômico. “Esse sistema nos faz acreditar que o nosso amadurecimento ao longo da vida nos conduz a nos tornarmos cada vez mais independentes e autossuficientes, reforçado por estruturas que privilegiam desempenho, produtividade e competitividade”, explica.
No entanto, o problema não diz respeito à autonomia em si, mas ao excesso dela. É o que especialistas chamam de “independência tóxica” ou hiperindependência. E, embora não tenha uma classificação formal na medicina, seus impactos são percebidos na saúde emocional, física e nas relações.
Por que pedir ajuda é tão difícil?
Para Ana, o receio em pedir e aceitar ajuda está diretamente ligado à forma como construímos a nossa imagem a partir do olhar do outro. Queremos sempre que o outro nos veja como alguém que dá conta de tudo. “É difícil pedir ajuda porque, para pedirmos ajuda, precisamos reconhecer o nosso limite e poder confiar que o outro vai poder fazer alguma coisa por nós, ou, minimamente, não vá nos julgar por esse pedido de ajuda. E isso é muito avesso a maneira como temos vivido, ainda que humano”, diz.
Em paralelo, Marcelle reforça que a independência tóxica vem acompanhada do que chamam de apego evitativo, quando as pessoas não conseguem criar intimidade e vínculo. “Isso tudo tem consequências para a nossa saúde social, porque uma vez que não conseguimos criar vínculos, nossa vida social vai se tornando empobrecida".
A consequência? O sentimento de solidão, que já afeta 1 a cada 6 pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Ana, aponta que há diferentes formas de solidão: a estrutural, em que não temos muita margem de negociação, e a solidão do isolamento. “Essa última é um efeito do mal-estar que sentimos ao perceber que não damos conta de tudo, que temos defeitos, de ver que não temos a vida perfeita, que somos pessoas limitadas. E ao entender isso como um erro, tendemos a nos afastar das pessoas. Como consequência, elas também tendem a se afastar, porque acham que sermos faltantes é um erro”, pontua.
Além disso, o nosso corpo encara o isolamento como um ataque físico. Ele libera adrenalina e cortisol, o que provoca dilatação das pupilas e das vias aéreas, aumenta a frequência cardíaca, o fluxo sanguíneo para os músculos, a pressão arterial e os níveis de glicose no sangue. “Essa reação biológica é importante para aumentar nossas chances de sobrevivência, mas ela é feita para durar o tempo do perigo. Logo, mulheres que acreditam que precisam ser totalmente independentes podem vivenciar essa reação corporal de maneira mais intensa e constante”, explica Marcelle.
Eu não preciso de ninguém, será?
Portanto, precisamos encontrar um ponto de equilíbrio. Há culturas mais coletivistas, que valorizam estruturalmente o grupo, e outras mais individualistas, que fazem o oposto. Quando qualquer uma dessas culturas está em seu extremo, vai gerar seus próprios desafios.
“A linha está na possibilidade de uma coexistência entre dependência e independência. Numa independência que seja saudável, você é independente em alguma medida, então não precisa ficar numa posição radical de pedinte de atenção, carinho, amor do outro, você dá conta de certas coisas da vida. Mas, ao mesmo tempo, coexiste com essa noção de dependência, em que você reconhece que precisa do outro”, destaca a psicóloga.
É o que também defende Marcelle, ao afirmar que o nosso desenvolvimento e maturidade como adultos ocorrem de maneira que nossas relações vão progressivamente se tornando mais interdependentes. Segundo ela, a interdependência, e não a independência, seria a relação de dependência de maturidade entre pessoas adultas.
“O que acontece no nosso amadurecimento não é progredir da total dependência para a total independência. O que acontece é que mudamos o tipo de dependência uns dos outros na medida em que nos tornamos adultos”, explica. Logo, dentro dessa perspectiva de relações interdependentes, temos autonomia e também de intimidade.
No entanto, para sustentarmos a interdependência, essa conexão que abre espaço para a individualidade ao mesmo tempo que para o vínculo, precisamos nos sentir seguras. É preciso experimentar esse sentimento para nutrirmos relações saudáveis. Segundo as especialistas, é um ciclo que se retroalimenta: sentir-se segura porque tem autonomia e intimidade, sustentar a autonomia e a intimidade porque há segurança.
Marcelle ainda reforça que a interdependência não é um novo modelo de relação, nem um conceito fechado. A segurança e a interdependência são construídas, então não é fixo ou estável, está sempre se movimentando. Logo, “é normal que em alguns momentos o pêndulo pese para a independência ou para a dependência”, destaca.
É possível encontrar lugares mais seguros dentro de cada relação. Vale se questionar: como se parece a interdependência para mim, para nós, nessa relação? O que eu posso criar para me sentir mais segura aqui e construir um vínculo baseado em uma dependência mais saudável? Afinal, amadurecer não significa precisar cada vez menos das pessoas, mas aprender a depender delas de outras maneiras.





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