Deixaram de nos chamar de histéricas para nos chamar de ansiosas e borderlines
A psicóloga Flávia Albuquerque defende que é essencial que se questione quais condições sociais levam tantas mulheres ao sofrimento psíquico ao invés de individualizar a questão como a psiquiatria hegemônica tem feito

Há uma tentação confortável de acreditar que a história da psiquiatria seja uma linha reta de progresso, na qual os erros grosseiros do passado teriam ficado, definitivamente, para trás. A histeria costuma ser lembrada como um desses erros já superados, uma relíquia constrangedora de um tempo em que a medicina ainda não sabia o que fazer com as mulheres. O que eu gostaria de propor nestas linhas é uma leitura mais incômoda, a de que a histeria não foi propriamente superada, mas apenas trocou de nome, e o fez de maneira tão sofisticada que hoje muitas de nós carregam os seus herdeiros com um certo orgulho.
"Nossa raiva costuma ter bons motivos, o nosso cansaço tem causas concretas e a nossa tristeza é, com frequência, bastante lúcida”
Convém começar pela origem, porque ela já diz muito. A palavra histeria vem do grego hystera, que significa útero. Desde a Grécia antiga, Hipócrates atribuía a um útero supostamente errante, que flutuaria pelo corpo causando desarranjos, aquilo que as mulheres sentiam. Por mais de dois mil anos, essa ideia se atualizou sem perder a essência, de modo que a histeria se tornou o grande diagnóstico-curinga da modernidade, aquele capaz de converter em doença praticamente qualquer expressão feminina considerada excessiva ou fora do lugar.
A raiva, o desejo, a insatisfação, a tristeza e o luto que se prolongava além do prazo esperado podiam todos ser lidos como sintomas de uma mente feminina tida como naturalmente instável, o que fez da histeria, durante séculos, menos um diagnóstico do que um instrumento de controle.
Cabe então perguntar o que aconteceu quando ela oficialmente desapareceu – porque desaparecer, ao menos no papel, ela desapareceu. Com a publicação da terceira edição do DSM, o manual diagnóstico da psiquiatria americana, em 1980, o termo histeria foi abandonado, mas abandonar o nome está longe de significar abandonar a operação que ele cumpria. Em vez de sumir, a histeria se ramificou, e aquilo que antes cabia sob um único rótulo foi redistribuído entre novas categorias que continuaram a recair, de forma desproporcional, sobre as mulheres.
O temperamento tido como dramático e ávido por atenção passou a ser descrito como transtorno de personalidade histriônica. Ao passo que a intensidade emocional, o medo do abandono e a instabilidade nos vínculos foram reunidos sob o transtorno de personalidade borderline – um diagnóstico, ainda hoje, atribuído majoritariamente a mulheres e cuja própria consistência científica é questionada por parte da literatura. Os sofrimentos que se inscreviam no corpo migraram para os quadros dissociativos e somatoformes. E há, por fim, o herdeiro mais popular de todos, aquele que se tornou quase onipresente no vocabulário contemporâneo: a ansiedade.
Até aqui, poderíamos concluir que se trata apenas da velha história do controle vestida com roupas novas, mas há uma diferença decisiva entre a histeria de ontem e os seus descendentes de hoje, e é justamente nessa diferença que reside o que considero mais fascinante e, ao mesmo tempo, mais perigoso. Enquanto a histeria era um rótulo imposto de fora e carregado com vergonha, algo que se ocultava, os diagnósticos contemporâneos operam de modo inverso, na medida em que são desejáveis.
Eles nos são apresentados de uma forma tão sedutora que passamos a querer tê-los, a nos reconhecer neles e a fazer deles um dos pilares da nossa identidade, de tal maneira que dizer "sou ansiosa", "sou borderline" ou "sou muito intensa" já não é mais um segredo a esconder, e sim uma forma corrente de anunciar quem se é. A patologização, nesse novo arranjo, não precisa mais recorrer à força para se impor, porque aprendeu a se tornar atraente. O que a torna uma forma de domesticação ainda mais eficaz, precisamente porque se apresenta com a aparência de libertação.
Enquanto isso, a lógica mais crua da histeria permanece viva onde talvez menos se espere, no interior do próprio consultório médico. A pesquisa recente sobre o chamado gaslighting médico tem documentado como as queixas das mulheres são sistematicamente minimizadas e atribuídas a hormônios, a estresse ou à imaginação, em vez de investigadas com seriedade.
Um estudo conduzido por Chen e colaboradores, publicado na Academic Emergency Medicine em 2008 com quase mil pacientes, constatou que mulheres com dor abdominal aguda esperaram mais tempo do que os homens para receber analgesia, com uma mediana de sessenta e cinco minutos contra quarenta e nove, e que, mesmo depois de considerados fatores como idade e intensidade da dor, elas permaneceram entre treze e vinte e cinco por cento menos propensas a receber analgésicos opioides.
O que poderia parecer um problema já datado reaparece, no entanto, em estudos muito mais recentes. Uma pesquisa realizada em um hospital de Melbourne, publicada em 2026, encontrou exatamente o mesmo padrão quase duas décadas depois, com as mulheres esperando, novamente, cerca de dezesseis minutos a mais para receber o primeiro analgésico. É a mesma pergunta atravessando os séculos, a de saber se, quando uma mulher diz que sente dor, ela será acreditada ou tratada como alguém que exagera.
Nada disso significa que a ansiedade não exista, ou que não haja mulheres que encontrem no diagnóstico um alívio verdadeiro, um nome capaz de organizar a própria experiência e de abrir a porta para o cuidado, e seria tão cruel quanto falso negar isso. O que proponho é apenas deslocar a pergunta. Porque, em vez de nos perguntarmos o que há de errado com tantas mulheres, a ponto de tantas de nós recebermos esses rótulos, talvez fosse mais honesto perguntar o que há de errado com um mundo que insiste em traduzir para a linguagem da doença aquilo que, muitas vezes, é uma resposta absolutamente legítima. Já que a nossa raiva costuma ter bons motivos, o nosso cansaço tem causas concretas e a nossa tristeza é, com frequência, bastante lúcida.
Os diagnósticos se tornaram, para as mulheres, uma versão moderna e higienizada das antigas fogueiras e dos antigos manicômios, mais sutil, mais palatável e por vezes até desejada, mas ainda funcionando como um mecanismo que individualiza e silencia a experiência feminina. Reconhecer isso não é, de modo algum, abrir mão do cuidado, e sim exigir um cuidado que não confunda o sofrimento de existir em um mundo desigual com um defeito a ser corrigido em cada uma de nós, uma a uma. Deixaram de nos chamar de histéricas para nos chamar de ansiosas e borderlines, e talvez caiba a nós, hoje, perguntar a quem ainda interessa manter as mulheres, século após século, sob permanente suspeita.




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