Do que falamos quando falamos de traição feminina
Dois lançamentos – um livro e um podcast – trazem a infidelidade de volta às conversas sobre relacionamento. Mas com uma novidade: agora o assunto são as mulheres que traem.

Em tempos de não monogamia, falar em traição pode parecer um pouco fora de moda. Mas o assunto está em alta. “Em uma cultura que exige satisfação individual e nos seduz com promessas de mais felicidade, nunca fomos tão tentados a pular a cerca”, escreve Esther Perel no best-seller “Casos e casos”. Agora, dois lançamentos, um livro e um podcast, reforçam a tese da terapeuta – para quem, aliás, o assunto nunca sai da pauta.
“É traindo que muitas mulheres conhecem o próprio prazer e reprogramam o destino”
“Do amor e seu avesso: uma apologia da traição”, da editora Paidós, é uma reunião de pequenos capítulos – ou fragmentos, como prefere chamar seu autor, o psicanalista Lucas Bulamah – sobre o que está por trás da infidelidade. Já o podcast “Quando são elas que traem”, da produtora Central 3, é composto por nove episódios. Construídos em formato narrativo, eles contam histórias reais de mulheres que traíram seus parceiros ou parceiras.
Nas duas novidades, o fator de gênero está em foco. Bulamah decidiu escrever justamente quando percebeu que “um curioso evento” estava acontecendo em seu consultório. Há pelo menos três anos, ele passou a ser procurado por um tipo específico de pacientes: mulheres que traem seus maridos ou namorados. Havia um detalhe a mais: boa parte delas já fazia terapia, mas não tinha contado sobre as puladas de cerca para os próprios analistas.
Para Bulamah, a atitude trazia algo novo. Aquelas mulheres estavam lidando com a infidelidade como uma coisa realmente paralela ao relacionamento oficial. “É como se deixassem o caso lá fora depois de abrir a porta de casa. Um comportamento muito masculino, mas que agora está mais comum entre as mulheres também”, diz o autor.
O quarto episódio do podcast “Quando são elas que traem” traz justamente uma história com esse mote. Aos 30 e poucos anos, Mariana (os nomes foram trocados para garantir o sigilo e a segurança das entrevistadas), uma executiva bem casada, aproveitava as viagens de trabalho para cultivar casinhos pelo Brasil. Para ela, estava tudo muito às claras. “Não é porque sou casada que preciso deixar de viver coisas interessantes. Marido é marido, amante é amante”.
Corria tudo muito bem, mas só até ela se apaixonar pra valer e perder o controle sobre o romance. E, aqui, entramos no tema que é o verdadeiro centro do livro de Bulamah e está por trás de todas as histórias do podcast: o desejo e a impossibilidade de controlá-lo. A maior parte dos episódios de “Quando são elas que traem” trata de mulheres para quem a alternativa à traição do marido era a traição delas mesmas, do que queriam, do que sentiam e do que precisavam viver.
“Trair alguém ou alguma coisa é necessariamente ser fiel ao nosso desejo”, disse Bulamah em entrevista à Mina. Para o psicanalista, o maior problema não está na traição em si, mas nas tentativas de governar o “sexual”, uma força pulsional que se realiza em um encontro erótico com ou sem sexo (mas geralmente com). O casamento convencional é a forma mais explícita dessa tentativa, mas nem quem vive relações abertas ou os casais liberais escapam das alfinetadas de Bulamah. Isso porque eles também pressupõem acordos e, ele diz, sem sua essência, o sexual é exatamente o oposto disso. Ele está na transgressão, na ousadia, naquilo que perturba a norma.
No caso das mulheres, tudo isso tem um peso muito maior. Transgredir, ousar, perder o controle e seguir seus próprios desejos são atitudes que só as gerações mais recentes têm podido praticar. “Mulheres adúlteras sempre foram consideradas agentes do caos”, afirma Bulamah. Não à toa, na literatura, no cinema e na televisão, a infidelidade feminina tem sido o motor das histórias – quase sempre contadas por homens.
O problema é que, mais do que desestabilizar o entorno, a mulher que trai corre um risco real de morrer. Um levantamento realizado pelo Instituto de Segurança Pública, no Rio de Janeiro, mostrou que, em 2025, praticamente um terço dos feminicídios ocorridos naquele estado (27,3%) foram motivados por ciúme ou desconfiança de traição.
Ainda assim, é pela via da infidelidade que muitas se libertam de padrões e estilos de vida que nada tinham a ver com elas. É traindo também que, muitas, conhecem o próprio prazer e reprogramam o destino. As discussões em torno do assunto mostram que falar sobre essas histórias não é uma tentativa de defender a traição. Nem uma forma de negligenciar todo o sofrimento que a infidelidade pode causar. Trata-se, na verdade, de um movimento para reconhecer, legitimar e naturalizar o desejo feminino e falar de relacionamento com uma sinceridade incomum.





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