Trair também é coisa de mulher
Inspirada pelo podcast “Quando são elas que traem", Tatiana Vasconcellos reflete sobre desejo, transgressão e a vontade de se reencontrar que levam muitas mulheres a pularem a cerca mesmo correndo riscos maiores que o fim da relação.

Trair sempre foi uma prerrogativa masculina. Todo mundo conhece um marido, um namorado, um companheiro que traiu. Ou que trai sistematicamente. E vida que segue. Toda mulher já viveu ou ouviu histórias assim. Agora, bem diferente, a traição de uma mulher pode custar a vida dela, assassinada pelos homens e sua noção de posse, como infelizmente noticio quase todos os dias. O medo, no entanto, não invalida o desejo. E há as que escolhem segui-lo.
Como não se perder de vista dentro de uma relação?
Interessada em gentes e comportamentos que sou, fui ouvir “Quando são elas que traem”, podcast produzido por uma equipe formada por mulheres e narrado por uma mulher que, por segurança, usa um pseudônimo. A série conta histórias reais de mulheres que traíram e, nesta semana, lançou seu segundo episódio. Conversei com a pesquisadora e roteirista da série, a jornalista Giuliana Bergamo, sobre o que existe por trás da decisão de falar de infidelidade feminina — e por que tirar a traição feminina do silêncio também pode ser uma questão de saúde e segurança para as mulheres.
“É importante desconstruir o tabu para diminuir o sofrimento tanto de quem pratica quanto de quem sente. Mulheres reagem de todas as formas à infidelidade dos maridos, inclusive com violência física. Mas quem morre somos nós. E, aqui, tem aquele dado do Instituto de Segurança Pública: as motivações para 1/3 dos feminicídios cometidos em 2025 no estado do Rio de Janeiro foram ciúme ou suspeita de traição", diz.
E completa: “Além disso, falar em traição, de certa forma, legitima os sentimentos de quem passa por isso: o desejo, a culpa, o arrependimento ou mesmo a sensação de que não poderia ter passado por essa vida sem isso. No silêncio, essas coisas ficam escondidas e quem vive sente uma solidão gigantesca, como se fossem as únicas. E não são".
Giuliana entrevistou cerca de 20 mulheres que toparam contar suas histórias anonimamente, das quais nove estão na primeira temporada. “Mulheres traem por muitos motivos: vingança, tesão, paixão e, quase sempre, porque se encantam com a possibilidade de serem vistas como indivíduos desejados e desejantes, despidas das funções de mãe, esposa, companheirona. Isso sem falar naquelas que levam vidas conjugais sexualmente terríveis e encontram no amante o sexo com prazer e satisfação real. Pelo menos duas mulheres, das nove entrevistas feitas em profundidade, tiveram o primeiro orgasmo com um amante", conta.
Essas informações dizem também da qualidade da média das relações que temos vivido: um cercadinho em que um pertence ao outro e, aos poucos, cada um vai esquecendo uma parte de si. Mesmo quando estar junto já não produz satisfação, prazer ou tesão; mesmo quando a mulher não se sente enxergada, ouvida ou amada. Então, para quê? Como não se perder de vista dentro de uma relação e continuar vivendo os próprios desejos e interesses sem que isso necessariamente signifique trair ou ferir o outro?
E lá fomos nós tentar novos arranjos. Há quem diga que relações não monogâmicas são sinônimo de “traição legalizada”, embora não haja transgressão quando sair com outras pessoas faz parte do combinado. Acontece que os combinados em geral são cheios de regras variadas, sujeitas a descumprimento. Eu gosto especialmente da regra que diz “não pode se apaixonar”. É o análogo do monogâmico “não pode desejar”. A chave, me parece, está em como se lida com isso.
“A culpa é um sentimento muito presente nas histórias de traição, mas não dá pra dizer que é onipresente. Algumas não sentem. Sobretudo aquelas que também foram traídas ou viviam um relacionamento violento, tóxico", compartilha a roteirista do podcast. “Uma coisa que eu acho muito bonita é que, por vezes, a traição funciona como uma via de acesso à própria essência, à própria verdade, coisas que, no relacionamento principal, na vida em que estavam levando, tinham ficado escondidas ou esquecidas. Temos muitas histórias de reviravoltas depois das traições”, conta.
Ser honesta consigo, lembrar de não esquecer de si é bem mais difícil quando, na estrutura emocional, está calcificada a cultura romântica monogâmica, com seus desconfortos, conveniências, culpas e, não raramente, violências.
Uma amiga que vive uma relação hétero diz que é a favor da “monogamia minimamente hipócrita”. O famoso “quer pegar alguém, não me deixa ficar sabendo”. Tenho sentimentos contraditórios por “o que os olhos não veem, o coração não sente”, mas talvez este jeitinho seja uma nova tentativa, para além da exclusividade ou da variedade limitada, de não trair. Nem ao outro, nem a si mesma. Será possível? (Narrador: tudo não terás)
“Tem uma coisa que eu concluí que talvez seja óbvia para muita gente, mas pra mim foi reveladora: a monogamia existe, sim”, diz Giuliana, numa iluminação. “Dá para amar e ter tesão só por uma pessoa, ou principalmente por uma pessoa, e viver muito bem com isso. O que não existe é monogamia eterna. Uma hora ou outra, o negócio transborda”.
Meditando sobre essa questão, que não é nada simples, penso que talvez o mais importante seja a mistura de duas coisas: comunicação clara, honesta e comprometida, ao mesmo tempo que respeitamos as individualidades, inclusive garantindo o direito de cada um viver seus próprios desejos e interesses. Viver confortável na confiança de que o outro vai fazer isso de maneira cuidadosa e respeitosa, mesmo que confiar em homem, às vezes, me pareça um ato de fé na vida. Será que conseguimos? Assim, o significado de traição se desloca e talvez seja necessário até arrumar outro nome, que não venha com tanta carga histórica.





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