Falar de dinheiro é transformar um tabu em troca, confiança e aprendizado
Pesquisa mostra que os brasileiros estão mais abertos a falar sobre finanças, enquanto especialistas discutem como essas conversas podem ampliar repertórios, rever aprendizados herdados e influenciar escolhas, planos e a forma como nos relacionamos com o dinheiro.

Falar sobre dinheiro está deixando de ser um assunto proibido. É o que mostra a pesquisa “Consciência e prosperidade: a nova relação do brasileiro com o dinheiro”, realizada pelo Itaú em parceria com o Grupo Consumoteca. Segundo o levantamento, 78% dos brasileiros já falam sobre dinheiro em família, entre amigos ou até nas redes sociais — um movimento liderado pela Geração Z.
Medo de julgamentos e culpa ainda podem fazer com que o diálogo seja evitado
A mudança parece fazer parte de uma transformação geracional. Um em cada três brasileiros afirma ter uma relação com o dinheiro diferente daquela observada dentro de casa. Com mais acesso a informações sobre investimentos, reserva de emergência e educação financeira, assuntos que antes ficavam restritos a especialistas começam a ocupar espaço nas conversas cotidianas.
Mas essa abertura é relativamente recente e ainda está em construção. Uma pesquisa anterior, realizada pela Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box e divulgada em setembro de 2024, mostrava que 69% dos brasileiros evitavam conversar sobre dinheiro com amigos e familiares, enquanto 73% preferiam resolver sozinhos seus problemas com dívidas.
Os dados ajudam a entender que falar mais sobre dinheiro não significa que o assunto tenha deixado de ser difícil. Medo de julgamentos, culpa, constrangimento e a sensação de que deveríamos dar conta de tudo sozinhos ainda podem fazer com que o diálogo seja evitado. E talvez seja justamente aí que esteja a oportunidade: quando o dinheiro deixa de ser apenas uma questão de cifras, contas e investimentos, ele também pode se tornar uma ferramenta de troca, aprendizado e conexão.
Falar de dinheiro aproxima
Eduardo Amorim, planejador financeiro, aponta que, quando passamos a permitir o assunto dinheiro em nossas relações, independentemente de qual for, todos se beneficiam. “É uma sensação de quebra-gelo. Você está numa roda de amigos, tomando uma cerveja, e, de repente, alguém compartilha uma informação um pouco mais íntima sobre sua vida financeira. É muito provável que os demais também se sintam à vontade para compartilhar os seus números”, explica.
Segundo ele, existe um fetiche pela vida financeira do outro. Há uma curiosidade em saber o quanto essa pessoa ganha, com o que ela gasta e como se organiza. “Uma vez que esse assunto passa a ser comum, primeiro satisfazemos essa curiosidade e depois passamos a aprender sobre aquele assunto de forma mais natural. E logo vamos percebendo que a maior parte de nós, tecnicamente, precisa de muito pouco”, diz.
Em paralelo, a jornalista Paola Pacheco, especialista em economia, carreira e negócios para mulheres, afirma que falar sobre dinheiro é muito mais do que falar de cifras. O tema não se restringe apenas a investimentos e produtos financeiros.
“Podemos falar sobre aposentadoria e gestão de patrimônio, que é uma garantia de renda numa posteridade. É falar também sobre lazer, sobre viagem, sobre a compra que satisfaz, sobre mobilidade social. O assunto vai desde um autoconhecimento até a conquista do poder das nossas próprias escolhas”, exemplifica.
Para ela, é na troca e no reconhecimento do que o outro fala que nos percebemos. “Quando falamos de violência patrimonial, por exemplo, muitas vezes reconhecemos uma situação que vivemos em casa, que até então achamos ser natural, e enxergar isso é romper com essas raízes que estão impostas dentro do nosso sistema capitalista e patriarcal. [...] E isso tem a ver com violência patrimonial, com infidelidade financeira”, pontua.
Encontre o seu espaço seguro
Se falar sobre dinheiro ainda parece desconfortável para algumas pessoas, a planejadora financeira Jana Gomes acredita que parte da solução está na criação de espaços seguros e acolhedores para esse diálogo, sem julgamentos. Ela destaca que encarar questões financeiras sozinho pode tornar o processo mais doloroso.
Já uma perspectiva externa, seja de um profissional ou de alguém próximo, pode ajudar a compreender melhor a realidade e identificar caminhos possíveis para melhorar a relação com o dinheiro e conquistar o tão sonhado bem-estar financeiro. “Esses espaços contribuem demais para a maneira como a gente lida com o dinheiro no dia a dia. Não é necessariamente para as pessoas abrirem seus números, mas se abrirem para a possibilidade de aprender e conhecer novas possibilidades”, afirma.
Outro ponto importante, de acordo com Jana, é que essas conversas não precisam começar necessariamente pelas dificuldades ou pelas contas a pagar, embora seja preciso encará-las. Falar sobre objetivos, sonhos e projetos pode ser um caminho mais natural e motivador para iniciar o diálogo. “Quando a gente olha para o dinheiro, os sonhos e os objetivos acabam sendo o principal motivador. A vida de pagar só boleto é muito ruim. Se a gente consegue criar um espacinho para os sonhos e projetos, isso dá muito mais sentido para a vida”, defende.





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