Deu onda na selva de pedra
Com tecnologia de ponta, piscinas de onda criam um novo ritmo para surfistas da capital paulista e do interior do estado — sem precisar encarar o bate e volta pro litoral. Agora dá pra surfar na hora do almoço ou entre uma reunião e outra

Surfar na cidade de São Paulo é uma realidade. E não só na capital: no interior do estado também é possível pegar ondas perfeitas, como se você estivesse em Itamambuca, Saquarema ou Fernando de Noronha — só para citar algumas das praias brasileiras mais disputadas pelos surfistas. A tendência, que vem se espalhando por cidades longe da costa em todo o mundo, fazendo a alegria de profissionais, amadores e iniciantes, tem nome e sobrenome: piscinas de onda.
“Surfar no meio do dia e depois ir pra uma reunião é inacreditável”
O sonho por verdadeiras piscinas de onda vem do século passado. A ideia futurista começou nos anos 1980, com os japoneses tentando criar uma onda artificial, sem sucesso. Foi só em 2010 que a empresa de engenharia espanhola WaveGarden desenvolveu a tecnologia de geração de ondas e lagoas para surfe, iniciando sua missão de popularizar o mundo com elas: de Austin, no Texas, a Sion, nos Alpes Suíços — passando, é claro, pelo Brasil.
Esse deslocamento do mar tem suas razões, e não tem nada a ver com trazer a praia para a cidade. “Essa tecnologia nasce para propiciar o surfe a quem não tem acesso ao mar no dia a dia", diz o arquiteto e surfista amador Fabio Bruschini. “A possibilidade de surfar no meio do meu dia e depois conseguir ir pra uma reunião é inacreditável. Eu ainda acho meio surreal, de tão legal.” De fato, trata-se de uma organização previsível para quem pratica o esporte, o oposto do que é surfar no mar, que depende de deslocamento, maré, vento, pressão atmosférica etc.

Muitos exercícios não foram criados pensando no corpo feminino

Muitos exercícios não foram criados pensando no corpo feminino
Meu corpo, meu brinquedo
Existem muitos adeptos da tendência — de profissionais até quem nunca tinha subido numa prancha. Enquanto os mais experientes usam as piscinas para aprimorar técnicas e treinar manobras, os iniciantes aproveitam a segurança do ambiente controlado para dar os primeiros passos na prática. O desafio de encarar o mar (que é totalmente diferente) fica para outro momento. Segundo Chico Ferreira, chef do restaurante Le Jazz e surfista, a piscina de onda é um sonho de criança que se tornou realidade.
“São ondas perfeitas, daquelas que na infância a gente desenhava no caderno, uma na sequência da outra", diz. Para ele, a experiência é fantástica do ponto de vista de surfar dentro da rotina da cidade de São Paulo, mas não substitui o contato com a natureza. “No mar, você está esperando uma onda e passa uma tartaruga, observa um pássaro pegar um peixe. Além disso, as piscinas de onda de hoje ainda são marolas — não dão a adrenalina de uma onda maior e mais pesada. Isso ainda só o mar tem.”
Brincadeira de criança
A verdade é que as piscinas são ideais para quem precisa burlar o trânsito, não tem casa na praia ou anda com pouca flexibilidade para surfar quando a onda rola em plena quarta-feira. Ou seja, o famoso bate-e-volta dos surfistas paulistanos nunca foi tão fácil. Afinal, aquela prática de acordar de madrugada, chegar na praia na primeira hora, cair no mar e voltar a tempo de trabalhar sempre foi complexa.
Hoje, existem muitas piscinas de onda espalhadas pelo mundo, uma das mais conhecidas é a do Surf Ranch, na Califórnia. Criado pelo maior campeão de todos os tempos, Kelly Slater, o rancho tem também uma unidade em Abu Dhabi, onde aconteceu, este ano, a segunda etapa do Mundial de Surfe. O Brasil já tem vários exemplares para chamar de seus, a maioria em São Paulo, além de uma em Garopaba, no Sul do país.
“O mar vai ser sempre o graal”
Na capital paulista, o Beyond The Club combina a expertise da WaveGarden com o nome do surfista Gabriel Medina, e a São Paulo Surf Club, da JHSF, traz a tecnologia PerfectSwell, da American Wave Machines. No interior, destacam-se as piscinas do Boa Vista Surf Club, em Porto Feliz, e da Praia da Grama, em Itupeva — esta última, foi a primeira da América Latina, inaugurada em 2021. Em quatro anos, o país ganhou cinco piscinas, e mais algumas estão por vir. Todas, vale lembrar, exigem que o frequentador seja sócio ou proprietário de um título, no caso de clubes, ou de uma casa, no caso de condomínios.
O surfista e arquiteto Gui Mattos, responsável pelo design de interiores do Beyond, celebra o privilégio de trabalhar em um projeto como esse. “É raro poder unir tão diretamente o modo como vivo à forma como projeto. A presença da piscina de ondas transforma a rotina, ela cria um novo ritmo, um novo tempo. Entre uma reunião e outra, poder entrar na água, pegar ondas e colocar o corpo em movimento muda completamente a energia do dia.”
O hype é tanto que muitas dessas piscinas são altamente disputadas por seus frequentadores, assim como as ondas nas praias, e já rolam até campeonatinhos em algumas delas. Mas Chico é enfático: “O mar vai ser sempre o graal. As grandes ondas como G-Land, Jeffreys Bay e Pipeline vão continuar sendo cultuadas”. Enquanto isso, é fácil encontrar essa turma numa piscina de onda mais perto de você.





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