Se o seu relacionamento acabar hoje, você está financeiramente segura?
Autonomia financeira não tem nada a ver com duvidar do futuro da sua relação. A consultora Jana Gomes explica por que isso importa e como começar

Estar em um relacionamento amoroso, feliz e estável, não deveria ser incompatível com ter autonomia financeira. Mas, para muitas mulheres, ainda é. Mesmo quando tudo vai bem, vale se perguntar: se algo mudasse hoje, você estaria segura financeiramente? Não se trata de prever o fim ou desejar o pior. Pelo contrário: desejo que seu relacionamento siga firme, regado de respeito, parceria e afeto. A reflexão aqui é outra, sobre a importância de cultivar segurança e liberdade também na vida financeira. E ela vale não só pra você, mas também para as mulheres ao seu redor.
A verdade é que a presença feminina no mercado de trabalho e o acesso ao próprio dinheiro são conquistas recentes. Muita gente esquece disso. Por isso, ainda hoje, muitas mulheres sentem insegurança ao lidar com finanças e acabam delegando as decisões importantes aos parceiros — mesmo quando são elas que sustentam majoritariamente a casa.
Acidentes, problemas de saúde ou mesmo o falecimento do parceiro podem deixar mulheres vulneráveis
Essa insegurança, porém, não é natural: é socialmente construída. E pode ser ressignificada. No livro “A Cabeça do Investidor”, a psicóloga Vera Rita de Mello Ferreira cita uma pesquisa feita nos EUA que mostra que mulheres negras, frequentemente chefes de família, tendem a ter mais autoconfiança financeira. A explicação? A vivência. Segundo ela, “a autoconfiança advém da experiência, mais do que de qualquer outro fator”.
Por isso, planejar a própria segurança financeira não é pessimismo, é lucidez. Como escreveu Tati Vasconcellos em sua coluna aqui na Mina, “pode ser aparentemente contraditório planejar o possível fim de um relacionamento quando se está confortável nele. Mas é meio como planejar a morte: de maneira desromantizada, realista e pragmática.” E nem sempre se trata de separação. Acidentes, problemas de saúde ou mesmo o falecimento do parceiro podem deixar mulheres vulneráveis, ainda que temporariamente.
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Se nos guiássemos mais pelos dados — e pela experiência das mulheres mais velhas —, talvez estivéssemos mais preparadas. Teríamos liberdade para sair de relações ruins, inclusive aquelas marcadas por violência (assunto para outro texto), e mais segurança após um divórcio. Um bom ponto de partida é a leitura de “O Complexo de Cinderela”, de Colette Dowling, que discute como a dependência financeira pode ser naturalizada como desejo inconsciente.
Mas é possível construir essa segurança. Algumas atitudes podem fazer toda a diferença:
Participe das decisões financeiras da família: do supermercado ao patrimônio, saber o que está acontecendo e opinar é essencial.
Tenha uma reserva individual: contas e sonhos conjuntos são válidos, mas ter dinheiro só seu garante mais autonomia em momentos delicados.
Tenha uma reserva financeira individual: Não há problemas em ter conta e sonhos conjuntos, mas, diante da decisão de se divorciar ou em caso de imprevistos, dinheiro em conta própria pode fazer muita diferença.
Se puder escolher, não abandone sua trajetória profissional por causa do relacionamento: interromper estudos ou trabalho dificulta (e muito) uma retomada futura.
Se for se dedicar aos cuidados não remunerados, negocie garantias: um valor mensal depositado em conta individual para suas escolhas pessoais (além das demandas da casa), contribuições ao INSS, previdência, seguros de vida — tudo isso ajuda a manter sua autonomia mesmo fora do mercado de trabalho.
Em tempos de tendências como a da “esposa troféu”, cuidar da própria segurança financeira não é frieza, é maturidade. Relacionamentos podem terminar, mas sua estabilidade precisa continuar. Com ou sem par, que você possa contar com a liberdade de escolher o que é melhor pra você.





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