O que as mulheres ganham quando a menopausa vira mercado bilionário
O calor que sobe às três da manhã, a palavra que some no meio da frase, a libido que desaparece. Sintomas que ninguém levava a sério viraram prioridade de pesquisa, remédio e até comercial de Super Bowl. Resta saber se, junto com a visibilidade, vem também tudo o que nos importa dessa conversa

Foi em 11 de fevereiro de 2024 que cerca de 123,7 milhões de norte-americanos tiveram de prestar atenção em mulheres na faixa dos quarenta e cinquenta anos realizando atividades corriqueiras em um comercial de TV. Sem nudez, sem ode à juventude, sem acrobacia. Tudo normal. O que fugia da normalidade era justamente o veículo de exibição: o Super Bowl.
O filme transmitido pouco antes do "kickoff" (o pontapé inicial que abre a partida) era um comercial do Veoza, medicamento oral para o tratamento de sintomas vasomotores (SVM), os populares "fogachos". Para quem não acompanha os preços dos horários publicitários, o momento que antecede o kickoff é a cota mais cara entre os espaços publicitários do Super Bowl, considerado o evento publicitário mais caro do planeta. Cada trinta segundos custava cerca de US$ 7 milhões naquele ano, segundo estimativa da Forbes. O filme do Veoza teve um minuto inteiro.
Vale dizer quem estava do outro lado da tela. Aquela foi a edição com a maior audiência feminina já registrada no Super Bowl: 58,8 milhões de mulheres, ou 47,5% do público, de acordo com a Nielsen. O laboratório japonês Astellas Pharma, responsável pelo remédio e pelo comercial, não estava falando para uma plateia majoritariamente formada por homens. Estava falando para quase sessenta milhões de mulheres, várias delas em idade de ter fogacho, num intervalo de futebol americano. Era a segunda vez seguida que a empresa comprava espaço no jogo.
Nos ensaios clínicos de fase 3 que sustentaram o registro na Anvisa, o medicamento reduziu o número e a intensidade das ondas de calor e dos suores noturnos em quatro semanas. O comercial acrescenta: "Em algumas mulheres, em até uma semana", diz o texto publicitário, em tom enfático.
Do Super Bowl, o medicamento da Astellas pegou uma ponte aérea e desembarcou no Brasil. Em junho deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o registro. E ele não chegou só: ainda na fila da agência está o Lynkuet, que tem o mesmo objetivo que o Veoza, diminuir os fogachos. A diferença? O laboratório. O Lynkuet vem com a etiqueta alemã da Bayer.
Nenhum dos dois tem data para chegar às prateleiras (o Veoza ainda precisa passar pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, que define o preço máximo de venda no país, e o Lynkuet aguarda a aprovação), mas o movimento é difícil de ignorar. Dois laboratórios do primeiro escalão global, disputando um sintoma que até outro dia era tratado como frescura.
Menopausa e a ciência
Para entender por que isso é notícia, é preciso olhar para trás. Até o início da década de 1990, mulheres eram frequentemente excluídas de ensaios clínicos. Segundo o artigo “Barreiras e soluções para a pesquisa e o cuidado em saúde da mulher: um chamado à ação”, publicado em março do ano passado na revista The Lancet Regional Health – Americas, as razões (ou seriam desculpas?) incluíam a "preocupação" com uma eventual gravidez durante os estudos, a ideia de que os ciclos hormonais "complicariam" os resultados e a pouca valorização das diferenças biológicas entre os sexos.
Por isso, “boa parte dos medicamentos, diretrizes e protocolos foi desenvolvida usando homens como referência", diz o estudo, em tradução livre.
Décadas de negligência depois, o dinheiro começou a aparecer. Em 2024, o então presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, assinou uma ordem executiva sobre pesquisa em saúde da mulher e anunciou US$ 200 milhões nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) a partir do ano fiscal de 2025, com menção explícita aos efeitos da perimenopausa e da menopausa na saúde cardíaca, cerebral e óssea. No mesmo ano, a agência de pesquisa avançada em saúde do país, a ARPA-H, distribuiu US$ 110 milhões em projetos de saúde feminina, vários deles voltados à menopausa. Do lado privado, a consultoria Femhealth Insights projeta que o mercado de produtos e serviços para menopausa chegue a US$ 24,4 bilhões até 2030. O Brasil deve liderar o mercado regional. Nada disso existia há dez anos.
O silêncio ensurdecedor dos fogachos
Com uma verba em reais (e muito mais modesta), a médica osteopata Luca Mameri, ao lado das sócias e amigas Sharon Hess, Patricia Pessoa e Susan Betts, fundou a Oest, startup de saúde feminina que tem como objetivo aliviar sintomas do climatério sem hormônios. Mas a proposta da femtech é diferente dos fitoterápicos de prateleira, aqueles que a Mina já analisou em detalhe nessa reportagem aqui. A partir de um questionário, a Oest mapeia os sintomas de cada mulher e indica uma combinação de fitoterápicos, vitaminas e minerais.
"São mais de 50 sintomas e manifestações que podem estar relacionados a menopausa, desde confusão mental, cansaço e alterações na libido até questões mais silenciosas, como a perda de massa óssea. A partir daí, nossa equipe, formada por médicos, farmacêuticos e nutricionistas, passou a desenvolver diferentes formulações ", diz Mameri. Ela conta que a marca conta com mais de 10 mil combinações diferentes que auxiliam mulheres a lidarem com os sintomas.
A falta de debate sobre o tema, mesmo entre as mulheres, é algo que vem mudando, mas ainda caminha a passos lentos. “Senti que essa procura aumentou a partir de 2015. Não só na clínica, mas também nos congressos e eventos de medicina sobre o tema", completa Luiz Francisco Cintra Baccaro, médico ginecologista, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e membro da Comissão Nacional Especializada em Climatério da Febrasgo.
Menopausa de forma holística
Para Karina Calife, PhD em Medicina Preventiva pela USP e membro do comitê executivo da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas, o interesse crescente pela menopausa precisa ser analisado sob duas perspectivas. A primeira é positiva: depois de décadas de invisibilidade, mulheres que envelhecem finalmente passam a ser vistas para além do ciclo gravídico-puerperal. A segunda exige cautela. Quando o mercado lidera esse movimento, existe o risco de que a atenção se concentre apenas nos aspectos da menopausa que podem ser transformados em produtos e tratamentos.
“Do ponto de vista da indústria, o corpo das mulheres é um espaço muito lucrativo: estamos sempre precisando de hormônios, chips da beleza e procedimentos estéticos. Até na hora do parto existe uma lógica de mercado, basta olhar o número de cesarianas no Brasil", diz. Para ela, ampliar as pesquisas sobre saúde da mulher é um avanço, mas isso não deveria significar reduzir a menopausa a um único sintoma. “Eu, como uma mulher de 58 anos, acho ótimo que estejam estudando o corpo feminino e trazendo esse debate à tona. Mas precisamos olhar para a menopausa de forma integral. Não só melhorar o fogacho, que é apenas uma parte do processo. E os outros sintomas, como a perda de libido e de memória?”
Há também o que vem na bula. Em dezembro de 2024, o FDA acrescentou ao Veozah (nome do Veoza nos Estados Unidos) uma tarja preta, o alerta mais grave do sistema regulatório americano, sobre risco raro de lesão hepática séria. A agência passou a recomendar exames mensais de função hepática nos dois primeiros meses de tratamento e novos exames no terceiro, sexto e nono mês. Agências europeia e australiana emitiram comunicados semelhantes. É um remédio novo e útil para quem não pode fazer terapia hormonal, e é também um remédio que pede acompanhamento.
Segundo o Google Trends, o interesse de busca por "menopausa" no Brasil sobe de forma consistente desde 2018 e hoje está perto do maior patamar já registrado. As buscas por "fogacho", bem menos frequentes, tiveram seu recorde histórico em junho deste ano, no mês em que a Anvisa aprovou o Veoza, e já recuaram desde então.





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