De onde vem aquilo que te excita?
Do toque à antecipação, existem diferentes portas de entrada para a excitação. A sexóloga Ana Canosa explica que entender como cada pessoa entra no clima pode ampliar o prazer — e evitar que diferenças sejam confundidas com falta de desejo.

Ela gosta de ficar perto. De conversar, trocar olhares, perceber o cheiro, a temperatura da pele, o jeito como a sua parceria a abraça. Precisa de tempo para sair da cabeça e entrar no corpo. Ele, por outro lado, funciona em outra velocidade: um beijo mais demorado e já está pronto para o sexo. Para ele, a intimidade começa quando os corpos se encontram. Para ela, muitas vezes, começa bem antes. Nenhum dos dois tem um problema sexual, mas, quando não entendem essa diferença, podem acabar criando um.
“Vale se perguntar: quanto espaço existe para a minha sexualidade se movimentar?”
Ela pode achar que ele está sempre com pressa. Ele pode interpretar a demora dela como falta de desejo. Ela espera mais envolvimento para se excitar; ele entende que o envolvimento acontece justamente quando começam os estímulos sexuais. E assim surgem frustrações: um cobra iniciativa, o outro se sente pressionado; um quer mais sexo, o outro gostaria de sentir mais relaxamento e prazer antes de chegar ao sexo.
A sexóloga americana Jaiya criou uma proposta chamada Perfis Eróticos, apresentada em seu livro Your Blueprint for Pleasure. A ideia é observar que as pessoas podem ter diferentes maneiras de entrar no estado de excitação e experimentar prazer. Ela descreve cinco perfis: Energético, Sensual, Sexual, Kinky e Metamorfo. Não se trata de medir quanto alguém deseja sexo, mas de perceber o que acende o desejo e favorece a experiência erótica.
O Sensual, por exemplo, estaria mais relacionado aos sentidos: cheiros, sons, texturas, sabores, ambientes, carícias e a possibilidade de relaxar. Já o Sexual responderia mais diretamente a estímulos ligados ao corpo nu, aos genitais, à espontaneidade e ao contato sexual. Para quem funciona assim, sexo pode parecer algo simples: deu vontade, começa, acontece.
O Energético traz outra dimensão: a excitação ligada ao acúmulo de energia, que envolve todo o corpo e se torna uma entrega quase espiritual, mas também à antecipação, à espera e à provocação. É aquela mensagem mais safada durante o dia, o olhar de desejo durante um jantar, a brincadeira que não se resolve imediatamente. O prazer também está naquilo que fica suspenso, prometido, imaginado. É como esticar o elástico da expectativa sem deixá-lo arrebentar.
Os Kinky encontram excitação na exploração de elementos considerados menos convencionais, como fantasias, jogos de poder e diferentes formas de estímulo. Já os Metamorfos, segundo Jaiya, conseguem transitar entre os demais perfis, o que lhe dá uma flexibilidade invejável.
A proposta é interessante porque nos faz pensar que não existe uma única porta de entrada para o desejo. Mas é preciso cuidado para não transformar os perfis em novas caixinhas. Afinal, de onde vem aquilo que nos excita?
Parte pode estar relacionada à personalidade e à maneira como percebemos o mundo. Pessoas mais sensíveis aos estímulos, por exemplo, podem ter uma experiência corporal muito diferente de quem precisa de estímulos mais intensos. Há também quem tenha uma relação difícil com o toque: uma carícia muito leve pode ser angustiante para alguém, enquanto outra pessoa precisa justamente de delicadeza para relaxar. Pessoas mais tímidas podem se incomodar com ter o corpo exposto e explorado com calma pela parceria.
Nossa sexualidade também é construída ao longo da vida. Cultura, educação, experiências amorosas e sexuais (inclusive traumáticas), vergonha, descobertas, fantasias e oportunidades de experimentar participam dessa construção. O que aprendemos a considerar excitante, permitido, proibido ou desejável não nasce necessariamente pronto dentro de nós.
E há quem tenha um repertório erótico estreito: só consegue se excitar em determinadas circunstâncias, com determinado estímulo ou fantasia. Nesse caso, talvez a questão não seja descobrir “qual é o meu perfil”, mas perguntar: quanto espaço existe para a minha sexualidade se movimentar?
Conhecer nossas preferências pode ser libertador. Mas conhecer apenas aquilo de que gostamos não significa necessariamente ampliar nossa capacidade de sentir prazer. Às vezes, a inteligência erótica está justamente em descobrir novas possibilidades, perceber as diferenças do outro e experimentar sem transformar cada encontro em uma prova de desempenho.
No casal, isso pode fazer toda a diferença. Em vez de pensar “ele não gosta de preliminares” ou “ela nunca está pronta”, podemos perguntar: “O que faz você entrar no clima?”. E, principalmente: “Será que existe alguma coisa que podemos aprender juntos(as)?”.
Porque desejo não é uma tomada que simplesmente ligamos. Para algumas pessoas, ele acende com o contato. Para outras, com os sentidos, a imaginação, a antecipação ou a novidade. E talvez uma das coisas mais interessantes da sexualidade seja justamente descobrir que o caminho até o prazer pode ser tão importante quanto o destino.




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