Quero, não quero: o drama da indecisão sobre ter filhos
Aos 36 anos, a jornalista Juliana Faddul se vê entre conversas sobre congelamento de óvulos, amigas que já são mães e uma pergunta que não se resolve: quero ter filhos biológicos? No caminho, tenta separar desejo, medo e a pressão de decidir antes que seja “tarde demais”.

Foi numa quarta-feira, sem aviso e sem marcar hora, que o peso da incerteza se materializou por meio de uma folha sulfite. Enquanto minha amiga de infância, um ano e meio mais nova que eu, comemorava a gestação debaixo de uma luz excessivamente branca no salão de festas do prédio da casa da sua mãe, só conseguia prestar atenção nas palavras em negrito “gravidez geriátrica” impressas no exame. Para quem não sabe, assim como eu até então, “gravidez geriátrica” é o termo médico para mulheres que engravidaram em “idade materna avançada” (aspas do Google). Qual é a idade materna avançada, segundo a literatura médica? 35 anos.
“Tenho inveja de quem já decidiu se quer ou não ser mãe”
Se você é mulher e está na faixa dos 30 aos 45 anos, já deve ter se deparado com a questão “você quer/não quer ser mãe?”. E, se tem algum poder aquisitivo, muito provavelmente já esteve numa roda de amigas cujo tema era o tal do congelamento de óvulos. Se a ciência corre a passos largos com alternativas para retardar a gravidez, as clínicas e laboratórios lucram com a incerteza. O procedimento costuma custar R$ 15 mil a R$ 30 mil por ciclo de coleta e congelamento, além de R$ 1 mil a R$ 3 mil por ano de armazenamento (dependendo da clínica). Como muitas mulheres precisam de mais de um ciclo para atingir uma reserva considerada “ideal”, não é de se espantar que o gasto ultrapasse R$ 40 mil.
Mesmo assim, o mercado global de congelamento de óvulos e bancos de embriões movimentou cerca de US$ 5 bilhões em 2025, segundo a Global Market Insights Inc. A expectativa é que esse mercado alcance entre US$ 10 bilhões e US$ 14 bilhões até 2030, com crescimento anual entre 10% e 17%, de acordo com projeção da Grand View Research. Empresas como Meta, Microsoft, Ambev e Mercado Livre, para citar apenas algumas, até colocam o procedimento como “benefícios” para as suas colaboradoras.
Vale dizer que o Sistema Único de Saúde (SUS) realiza o congelamento de óvulos (criopreservação) de forma gratuita, mas o procedimento é restrito a casos de infertilidade comprovada ou para pacientes oncológicas. Ou seja, o congelamento puramente social (por opção de adiar a maternidade) não é coberto. De todo modo, congelar óvulos não garante uma gravidez de sucesso no futuro.
Se a maternidade é um pêndulo tanto na economia, como na esfera íntima, esse vai e vem ganha tração quando surge a indecisão. Quero ser mãe? Não quero ser mãe? A única certeza que tenho é que… não sei.
Quando o assunto da indecisão vem à tona nas rodas de amigas ou grupos de WhatsApp, nascem dois movimentos nas mensagens diretas ou nos cantos das festas: o das amigas que já se tornaram mães e têm certeza que foi a melhor coisa que aconteceu na vida delas e as que têm certeza de que nunca teriam filhos. Eu, no mínimo, invejo essas mulheres que já encontraram uma resposta para essa pergunta.
Tanto defesa quanto acusação listam pontos importantes. As mães contam que nunca experimentaram um amor “tão avassalador". Esse amor às vezes brota já na hora do parto, às vezes por meio de um episódio corriqueiro. Não importa quando ele vem, mas como: não é arrebatador e doloroso como o amor romântico, mas de completude. E, mesmo assombrada com relatos estarrecedores da “maternidade real”, quando pego uma criança pequena ou um bebê (sempre sentada) e cheiro o pescocinho ou o cabelinho, me derreto e sinto que nasci para ter, no mínimo, nove filhos.
Isso até meu celular apitar por conta de uma mensagem de alguma amiga me convidando para tomar um vinho e, bêbadas, comprarmos uma passagem para sei-lá-onde porque piscou em nossos celulares uma promoção de passagem aérea. E, assim, perceber como gosto de viver a vida com essa liberdade. Que posso mudar de ideia, começar um novo hobby, enjoar desse novo hobby, mudar de carreira, me apaixonar perdidamente por um mochileiro hippie na segunda e querer casar na Igreja Nossa Senhora do Brasil com um engravatado da Faria Lima no sábado.
Mas essa liberdade é uma ilusão. Ela nunca nos pertence por inteiro. Já os homens podem atravessar décadas em uma juventude prolongada, deixando a paternidade para quando os estímulos da vida parecerem menos urgentes.
Durante muito tempo, eu nem imaginava que a maternidade pudesse ser uma escolha. Ela era uma certeza, dessas que se apresentam naturalmente como a primeira menstruação ou a primeira desilusão amorosa. Não me perguntava se aconteceria, apenas quando aconteceria. Talvez por isso ainda estranhe tanto o fato de ter de conviver com um "não sei" quando me perguntam sobre a maternidade.
Enquanto vivo uma adolescência senil – ainda tenho pesadelos sobre os “perigos da gravidez na adolescência” – meus óvulos rumam destino à aposentadoria. Há tanto para ler, aprender, amar, construir, abandonar.
Este, infelizmente, é um texto em aberto porque minha dúvida ainda está em aberto. Prometo voltar quando tiver uma resposta. Enquanto isso, o relógio segue fazendo seu trabalho, eu sigo fazendo o meu e, entre uma crise existencial e uma promoção de congelamento de óvulos no Instagram, espero que a resposta se materialize do nada, assim como a incerteza o fez.





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