Sobre sonhos, planos e o complexo de Zeca Pagodinho
A autora Manuela Dias é expert em chegar lá. Seu segredo são 20 anos planejando todos os seus desejos nos mínimos detalhes. Aqui ela dá a letra para quem também quer se jogar nesse marzão que é a vida com um pouco mais de controle.

Confesso que admiro, com certa inveja, quem leva a vida segundo a filosofia “deixa a vida me levar”, mas nunca fui Zeca Pagodinho. Cresci com minha mãe dizendo que eu não herdaria um real, mas que, a herança que me caberia, eu nunca perderia e nunca seria tomada de mim: cultura e conhecimento.
Hoje em dia, posso dizer, sem medo de errar, que sobrevivi e sobrevivo de cultura, conhecimento... e planos. Não só adoro fazê-los, como sou a favor e recomendo!
+ Veja também: Fazer as pazes com a ansiedade
+ Veja também: Descanso é direito, não recompensa
Sempre haverá alguém para dizer que prefere viver sem expectativas. Não quero dar uma má notícia, mas ter a expectativa de viver sem expectativas, já é uma expectativa. Então, o jeito é aprender a lidar com elas mesmo. E a única forma de fazer isso é aprender a se frustrar. Aliás, conviver de forma resiliente com frustração é a receita para qualquer sucesso.
Sonho é uma vontade forte. Já um plano é um sonho com cronograma, orçamento e projeto de execução
Arriscaria dizer que seu poder de realização será diretamente proporcional à sua capacidade de processar frustrações. Porque serão muitos, muitos, mas muitos “nãos” para cada “sim”. E tudo bem! Quem disse que a felicidade é um estado monótono de satisfação? Não. A felicidade tem o desequilíbrio de uma rede que balança. Seguir preso à parede é o máximo de segurança que se pode almejar.
Mas, vamos voltar aos planos, já que a minha pretensão aqui é que você os faça! Para começar, é importante definir a diferença entre “plano” e “sonho”. Sonho é um desejo, uma vontade forte. Já um plano é um sonho que tem cronograma, orçamento e projeto de execução.
+ Leia também: “Gosto de estar no controle de tudo. Meu caos tem método”
+ Leia também: 5 iniciativas que promovem o bem-estar na cidade
Para começar vamos dividir nossos planos em três prazos. Planos para curto, médio e longo prazo. Sendo curto prazo um ano, médio prazo três anos, e longo prazo cinco anos. A ideia é fechar os olhos e pensar em como você quer estar daqui a um ano, daqui a três anos e daqui a cinco anos e anotar em três listas esses desejos.
Depois vem a melhor parte, que é transformar os desejos em plano! Atenção: é fundamental anotar, senão não funciona. Também é importante que eles sejam exequíveis, ou seja, possíveis de serem realizados. E eu espero que nem todos os seus itens sejam bens de consumo, afinal, nem tudo o que importa nessa vida está à venda. Aqui alguns exemplos: fazer um esporte, autoconhecimento, planejar uma viagem, se alimentar melhor ou se engajar em algum projeto social.
Hora de apelar para um exemplo e seu poder clareador! Como transformar um sonho em plano? Vamos lá. Digamos que seu desejo a curto prazo, ou seja, para daqui a um ano, é estar fazendo exercícios de forma regular. Vamos analisar esse item!
Qual exercício você se visualiza fazendo? Corrida, boxe, dança, academia?
Onde você poderia fazê-lo? Quais as opções possíveis perto de onde você mora, estuda ou trabalha?
A que horas você vai encaixar essa atividade na sua agenda? Prefere de manhã ou à noite? Quantos dias por semana? (Dica: melhor começar com um ou dois dias fixos e ter consistência do que planejar malhar todo dia e não conseguir.)
Conhece alguém que possa te ajudar em alguma etapa desse projeto? Um amigo que seja professor de alguma atividade ou um atleta que possa te incentivar ou dar dicas?
E, por fim, quanto isso vai te custar financeiramente? Você já tem tudo o que precisa para fazer essa atividade, tênis, sapatilha…? Se não tem, o que precisa comprar? Onde vende e quanto custa?
Depois de listar essas respostas, você terá não o sonho de fazer exercício, mas um plano, um projeto executável. Pode confiar, todos temos o poder de construir o caminho para que cada um dos nossos sonhos se tornem realidade.
Se ficar com vontade de mudar alguma coisa, mude! Ser livre é rever nossos planos.
Faço isso há mais de 20 anos... Além de ser um portal interessante de autoconhecimento, em pouco tempo essas listas (de itens concluídos, não-concluídos e abandonados) nos dão a deliciosa sensação de que esse cavalo selvagem que é a vida aceita sugestões. Com o passar do tempo, você vai olhar para elas e ver que está, sim, manejando o leme da sua vida.
O que não quer dizer controlar tudo, ok? A vida é surpreendente e inédita. É certo que o mar vai estar revolto às vezes e que as estrelas podem sumir sobre as nuvens de uma tempestade. Por isso mesmo, é importante saber onde está nosso Norte e garantir que estamos segurando o leme na direção dos nossos sonhos.
Planejar pode nos ajudar a parar de “correr atrás” e começar a correr na frente! Correr será inevitável... Mas quem não gosta desse vento batendo no rosto?
*Manuela Dias é escritora e autora da novela “Amor de Mãe” e das minisséries “Ligações Perigosas” e “Justiça” da Globo.





Comentários (0)